4º DOMINGO DA PÁSCOA (3 de maio) 

O BOM PASTOR E OS PASTORES DO POVO

 

I. INTRODUÇÃO GERAL

Hoje é dia dos pastores e dia da pastoral. Trabalhar na pastoral de uma comunidade é estar a serviço da vida e liberdade do povo, continuando na história os atos libertadores de Jesus, o bom pastor. Ele nos mostra o sentido da ação pastoral: dar a vida pelas ovelhas. A sociedade pode nos criticar e até perseguir por defendermos e promovermos a vida do povo. Mas nós, que um dia fomos cativados pelo serviço do bom pastor que nos deu a vida, caminhamos rumo à manifestação final, quando seremos semelhantes a ele e o veremos como ele é.

 

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

 

1. Evangelho (Jo 10,11-18): O bom pastor e os pastores do povo

O contexto do capítulo 10 de João é o da festa da Dedicação do templo. Os que voltaram do exílio na Babilônia comemoraram esse acontecimento no ano 515 a.C. e Judas Macabeu criou a festa da Dedicação no ano 164 a.C. Nessa ocasião privilegiava-se a leitura do capítulo 34 de Ezequiel, que serve de pano de fundo para o capítulo 10 de João, texto fortemente polêmico em relação às instituições que massacravam o povo, sustentadas pelas lideranças político-religiosas do tempo. Assim é que chegamos à seguinte constatação: o templo é o curral de onde Jesus tira as ovelhas (povo), pois aí mandavam as lideranças injustas e exploradoras (mercenários) que mantinham a população submissa em nome de Deus. O cego de nascença do cap. 9 de João é o tipo da pessoa que ouve a voz de Jesus e o segue, deixando o curral (ele, na verdade, foi expulso pelas lideranças do povo). Assim, Jesus é a porta que conduz para fora das instituições que não promovem a vida. Por ele as ovelhas saem e encontram pastagem e vida em abundância (cf. 10,10). Jesus é porta também em outro sentido: ele é o que introduz o ser humano na vida de Deus. Entrando por Jesus-porta, as ovelhas se encontram com o Pai e seu projeto (cf. 14,6: “Eu sou o Caminho”).

Ao dizer eu sou o bom pastor, Jesus se põe em pé de igualdade com o Deus libertador do Êxodo que assim se deu a conhecer a Moisés: “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14) e assim quer ser lembrado de geração em geração. Jesus bom pastor é, portanto, a memória e a presença viva do Deus que conduz o povo para fora de tudo o que oprime e diminui a vida. Com ele iniciamos novo e definitivo êxodo rumo à vida em plenitude que Deus quer para todos.

Os vv. 11-13 do evangelho deste domingo opõem o pastor que é Jesus aos mercenários que são as lideranças político-religiosas do tempo e de todas as épocas. Jesus é muito severo, chamando de ladrões e assaltantes os que vieram antes dele (v. 8). Por que o mercenário é ladrão e assaltante do povo? Porque seus objetivos contrastam com os de Jesus: este dá a vida por suas ovelhas, ao passo que aqueles tiram a vida e a liberdade do povo. Quem não ama o povo até dar a vida por ele não é pastor. Quem vê o povo sendo estraçalhado pelo “lobo” e procura salvar a própria pele ou, o que é pior, tira vantagem disso não merece o nome nem a função de pastor. O povo não o ouve nem o segue (cf. v. 8). Diante de Jesus bom pastor, não há meio-termo: ou estamos a serviço do povo até o fim, dando a vida por ele, e assim nos assemelhamos a Jesus, ou somos mercenários e exploradores, ladrões e assaltantes, coniventes com as situações e estruturas que geram a morte da nossa gente.

Os vv. 14-16 desenvolvem o tema da relação pastor-ovelhas, alargando os horizontes até atingirem dimensões universais, como é próprio do Evangelho de João: “Tenho outras ovelhas que não são deste redil. Também a elas eu devo conduzir; ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (v. 16). A relação pastor-ovelhas é sintetizada pelo mútuo conhecimento. Conhecer Jesus e ser conhecido por ele não se reduz a simples teorias sobre ele. Para o povo da Bíblia, conhecer se traduz em experiência e presença ao mesmo tempo. Conhecê-lo, portanto, é experimentá-lo como presença que liberta e dá a vida.

Os versículos finais (17-18) falam da relação existente entre Jesus e o Pai. A vida de Jesus foi contínua manifestação da vontade e do amor de Deus para com a humanidade, e a suprema prova desse amor se deu na “hora” de Jesus (sua paixão, morte e glorificação), quando entregou a vida para retomá-la na ressurreição. “Assim como Jesus, quem se dá a si mesmo até a morte por amor não o faz com a esperança de recuperar a vida como prêmio para este sacrifício (mérito), mas com a certeza de poder tomá-la de novo pela força do próprio amor” (J. Mateos-J. Barreto).

 

2. I leitura (At 4,8-12): O que fazem as lideranças mercenárias?

O texto faz parte do pronunciamento de Pedro diante do Sinédrio, o supremo tribunal da época, o mesmo que condenou Jesus à morte. Os discípulos estão diante dos mesmos conflitos enfrentados por Jesus. No plano de Lucas, autor do evangelho do mesmo nome e dos Atos dos Apóstolos, a prática de Jesus se prolonga na de seus seguidores. Assim como o Mestre foi preso e, na manhã seguinte, apresentado ao tribunal (cf. Lc 22,66), também os discípulos (Pedro e João) passaram uma noite na cadeia e, na manhã seguinte, comparecem diante do Sinédrio.

A leitura deste domingo apresenta o discurso de Pedro, “cheio do Espírito Santo”, às lideranças político-religiosas do tempo. Esse detalhe é importante, pois em Lc 12,11-12 Jesus havia dito aos discípulos que o Espírito Santo falaria por eles nos momentos mais duros do confronto com os representantes da sociedade injusta: “Quando introduzirem vocês diante das sinagogas, magistrados e autoridades, não fiquem preocupados como ou com que vocês se defenderão, ou o que dirão. Pois, nessa hora, o Espírito Santo ensinará o que vocês devem dizer”.

Pedro começa desmascarando a falsidade do Sinédrio: “Hoje estamos sendo interrogados em julgamento por termos feito o bem a um enfermo e pelo modo como foi curado” (v. 9). Pode alguém ser levado ao tribunal pelo fato de ter restituído a saúde a um coxo de nascença? Aí reside a hipocrisia do Sinédrio: em vez de se preocupar com a liberdade, justiça e vida do povo, seus membros estão envolvidos com a opressão, injustiça e morte do povo. Os membros do Sinédrio perguntam em nome de quem, isto é, com qual autoridade, os discípulos fizeram o coxo de nascença andar (v. 7). Isso demonstra que o Sinédrio não está interessado na vida do povo, e sim na sua submissão. Por quê? E por que temem o poder que comunica vida ao povo?

A resposta de Pedro contém, simultaneamente, um anúncio e uma acusação. O anúncio é este: o novo poder que comunica vida ao povo é o nome de Jesus Cristo, de Nazaré, morto e ressuscitado, pois nenhuma libertação é possível fora dele: “Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possamos ser salvos” (v. 12). A acusação é tão forte quanto o anúncio: “Vocês crucificaram Jesus Cristo, de Nazaré… Ele é a pedra que vocês, os construtores, desprezaram, e que se tornou a pedra angular” (vv. 10.11).

Os dirigentes do povo, particularmente os doutores da Lei, gostavam de ser chamados “os construtores da Lei”. Cabia-lhes a responsabilidade na construção de uma sociedade baseada na vida para todos, mas agiam justamente ao contrário. Sobre eles, portanto, pesa o julgamento de Deus. De réu, Pedro se torna acusador da perversão do Sinédrio que destrói o povo. Ele cita o Salmo 118,22 e Isaías 28,16: “Eu vou assentar no monte Sião uma pedra, pedra escolhida, angular, preciosa e bem firmada; quem nela confiar não será abalado”. O Salmo 118,22 referia-se ao templo, destruído e reconstruído. Pedro afirma que essa pedra angular, rejeitada, mas escolhida, é Jesus Cristo morto e ressuscitado. E quem não se apoia nela para construir a vida do povo e suas relações é, para empregar uma expressão do evangelho deste domingo, um mercenário que explora o povo. Essas pessoas condenam a si próprias, pois, no dizer de Jo 3,18, “quem acredita nele não está condenado; quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus”.

 

3. II leitura (1Jo 3,1-2): Veremos a Deus como ele é

Os versículos escolhidos como segunda leitura deste domingo pertencem a uma seção que vai de 2,29 a 4,6, cujo tema é viver como filhos de Deus. Como realizar isso? Os dissidentes carismáticos, adeptos da gnose, afirmavam que era mediante um conhecimento religioso especial e pessoal. O autor da carta prova o contrário: viver como filhos de Deus implica a prática da justiça: “Todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus” (2,29). A prática da justiça mostra que Deus é justo e nos torna seus filhos. Portanto, ser filho de Deus é estar em sintonia com o projeto do Pai.

O texto salienta que o amor do Pai é a grande força que sustenta a caminhada da comunidade cristã, apoiando e encorajando a luta pela implantação do projeto de Deus. O conflito está bem presente no texto. João o define empregando a expressão “o mundo” (os que não aderiram ao projeto de Deus): o “mundo”, descompromissado com a vontade divina, não reconhece, isto é, hostiliza, calunia, difama e persegue os que desejam implantar na terra a justiça (cf. 3,1). Os cristãos, porém, têm condições de superar as dificuldades e conflitos da caminhada. Sua força está em serem filhos de Deus. Por ora não é possível ver claro o que vamos ser, porque a manifestação de Cristo ainda não é plena. Mas, quando se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é (3,2).

 

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Todos os anos, o quarto domingo da Páscoa é dedicado ao tema do bom pastor, ponto de partida e de confronto para as pastorais e para todos os que são considerados pastores em suas comunidades. Por isso é oportuno perguntar quais as motivações e interesses de quem é pastor ou dedica parte de sua vida à pastoral. As pastorais nascem das necessidades urgentes das comunidades. Disso é testemunha o apóstolo Pedro na I leitura deste domingo. O que pode desvirtuar a pastoral? Quais os sinais de que estamos seguindo o bom pastor? Há espírito mercenário na ação pastoral?